Há exatos 20 anos, no dia 8 de Outubro de 1996, o disco Antichrist Svperstar era lançado. Para celebrar o lançamento de um dos maiores discos dos anos 1990, fizemos um post especial falando sobre o álbum e o analisando brevemente, mostrando as referências utilizadas pelo Manson para construir seu conceito e tudo o mais.

Por Erico Ferry

20 anos da obra-prima da apoteose anticristã

No ano de 1996, quando o movimento grunge já dava sinais de perder a força e o Britpop estava em alta aos quatro ventos, o continente norte-americano, mais precisamente os Estados Unidos da América, estava por vivenciar um novo movimento de contracultura com a explosão do Nine Inch Nails e o rock industrial ganhando cada vez mais espaço na MTV, mas ainda assim não tinham uma figura que tivesse cravado a faca no paladar da mídia.

Em 8 de outubro daquele mesmo ano, o país e o mundo receberam aquilo que seria uma das obras mais controversas, provocantes, críticas e complexas da história da música popular até então, senão a mais forte em termos de agressividade até hoje.

O mundo abre suas pernas para uma nova estrela” e Antichrist Svperstar era lançado pela Nothing/Interscope Records, produzido por Trent Reznor. Marilyn Manson até então vinha de um álbum de estúdio bem recebido e um single cover de Sweet Dreams (Are Made of This) do duo britânico Eurythmics, que teve sucesso mundial com seu vídeo repetido à exaustão. Mas faltava uma obra que consolidasse Manson e sua banda e os levassem ao estrelato e logicamente ao topo das polêmicas musicais da época. Antichrist Superstar foi a obra de fato conseguiu mostrar o potencial e sagacidade de Manson ao mundo do show business.

Com a premissa de “destruir o cristianismo” tão disseminado na cultura americana, o disco já tinha início na capa com Manson interpretando um Baphomet e partia de uma jornada conceitual com toques autobiográficos, misturando-se de forma eficaz com o satanismo de Anton LaVey (Fundador da Igreja de Satã, um movimento/corrente filosófica com o objetivo de combater as religiões cristãs, em cujo qual Manson foi nomeado pelo próprio LaVey como ministro), críticas sociais, ocultismo, Alquimia, Cabala, política, cultura pop e uma dose cavalar de sarcasmo. A base para a estrutura da obra parte da autobiografia de Manson que viria a ser lançada em 1998 com o título de Long Hard Road Out of Hell. Ao encarnar a personagem do Anticristo, Manson dividiu a narrativa em três ciclos no disco representando fases de desenvolvimento do protagonista: “O Hierofante”, “A Inauguração do Verme” e “A Ascensão do Desagregador” progressivamente nessa ordem.

Ao avançar na cronologia do disco, é possível perceber a genialidade de Manson ao se relacionar de maneira consciente à filosofia de Friedrich Nietzsche e o seu conceito do “Além Homem” explorado na sua obra Assim Falou Zaratustra e na estrutura de ciclos contínuos do disco, partindo então para a teoria do Eterno Retorno explorada em A Gaia Ciência. Não é uma mera analogia, mas de fato um mecanismo de funcionamento do Além Homem na figura do Anticristo buscando transcender o estado de alienação que a religião cristã e seus supostos valores injetam na mente do homem. A própria figura e visual, extremamente andróginos, e provocadores de Manson em palco refletiam a junção dos sexos em referência ao andrógino alquímico, um estado de transcendência do homem onde masculino e feminino se tornam uma criatura só superior à toda a personalidade rasa que nosso estado humano possui.

Essa complexidade também entra na dualidade Cabalística do bem e do mal, expressos pela máxima de que no mundo todas as coisas possuem um lado bom e um lado ruim, vindos como resultado da própria personalidade divina da tradição que emana uma força maligna em contrapartida. A dualidade acabou por ser um termo constantemente presente na obra posterior de Manson. Um estudo mais aprimorado pode levar horas ou dias, senão toda uma vida para encontrar as infinitas mensagens presentes na espinha dorsal do álbum. Nem mesmo o guitarrista estreante da banda, Zim Zum, passou ileso à influência ocultista de Manson, sendo Zim Zum um termo que denota a ausência de deus (Nietzsche mais uma vez). O Anticristo em questão seria justamente uma ironia reflexa dos valores da cultura americana, trazendo à tona que essa figura tão temida não é nada mais além do que a própria natureza do homem e seu estado racional e funcional entrando no conceito de Übermensch, assim como uma forma de mostrar: “Cá estou eu, produto da soma dos seus erros encarnado em tudo que vocês mais reprimem e condenam, vejam o quão disfuncional socialmente vocês me fizeram”.

Para entender ainda melhor como de fato funcionam as engrenagens de Antichrist Svperstar, é preciso analisar como se dá o desenvolvimento do seu conteúdo. Ao iniciar o disco e seu primeiro ciclo ( “O Hierofante”, numa alusão ocultista em referência à carta do Sumo Sacerdote do Tarô, que não por acaso é a quinta carta dos arcanos maiores em referência ao nascimento de Manson, 05/01/1969) com Irresponsible Hate Anthem, ouvimos gritos ensandecidos de louvor a um Manson ensandecido no palco, que destila farpas a respeito da cultura de massas norte americana e sua hipocrisia na figura do Rock Star, que por ironia do destino é um tiro pela culatra da marginalização cultural que os Estados Unidos tanto fizeram à população negra, que acabou criando do rock n’ roll tão odiado pelas mães e pais de família, um dos símbolos máximos da cultura do país que é o próprio Rock Star.

“Todo mundo é o negão de alguém
Eu sei que você é e eu também
Eu não nasci com dedos do meio o suficiente
E eu não preciso escolher um lado”

Na sequência, The Beautiful People continua a mostrar a língua afiada de Manson quando questiona o que de fato é padrão de beleza dentro da sociedade na qual cresceu, e como deixa claro em seu livro, não o recebeu de braços abertos em seu período estudantil.

“As pessoas bonitas, as pessoas bonitas
É tudo relativo ao tamanho da torre da sua igreja
Você não consegue enxergar a floresta pelas árvores
E você não consegue sentir o cheiro da sua própria merda em seus joelhos”

Ao afirmar:

“Os vermes vivem em todo hospedeiro
É difícil escolher qual eles comem mais”
,

vale notar uma clara alusão à maturação da figura do Verme, que seria a primeira fase da vida do Anticristo final. Em Dried Up, Tied and Dead to the World, vemos uma incisão mais profunda no cerne da história. Aqui o Verme se encontra ainda preso à aquele paradigma que vive, em uma relação de passividade para com o mundo, oprimido como se vivesse na tutela de uma superproteção paterna/materna. A última parte do primeiro ciclo vem com Tourniquet e sua atmosfera sombria de declamação por uma mudança de fase. No clipe da música Manson se encontra cercado por vermes, representações humanoides de criaturas em construção, e se fechando em um casulo no qual a personalidade do verme amadurece e ganha suas asas. Termina assim a primeira fase de sua vida.

“Síntese protética com borboleta
Selada com costuras de virgem
Se machuca, querida, por favor me diga
Preserve a inocência
Eu nunca quis acabar assim
Mas as moscas vão botar seus ovos

Jogue seu ódio em mim
Faça da minha cabeça sua vítima
Você nunca acreditou em mim
Eu sou seu torniquete”

Little Horn abre o segundo ciclo (A Inauguração do Verme) em uma letra profética à besta do apocalipse que se levanta dos mares e desce como um soco na face do mundo até então vigente, como sugere na alusão ao Abismo que encara de volta àquele que o fita por muito tempo, recorrendo a Nietzsche mais uma vez. Cryptorchid funciona como um interlúdio onírico. A criptorquidia é uma condição na qual um dos testículos não desce da cavidade abdominal para o saco escrotal. Manson possivelmente pode ter se referido a isso como um estado de reprodução imaculada do verme uma vez que essa condição clínica aumenta os riscos de esterilidade.

O clipe da música inclusive reforça o quão Antichrist Svperstar é uma obra multiplataforma ao se basear no filme surrealista Begotten de 1991, dirigido por E. Elias Merhige que, inclusive, é responsável tanto pelo clipe da música quanto a da faixa título do álbum. Tanto o disco quanto o filme de Merhige tem o mesmo tempo de duração, e se sincronizados se complementam como no efeito The Dark Side of the Rainbow (Em referência à sincronia também perfeita do álbum The Dark Side of the Moon do Pink Floyd e o filme O Mágico de Oz), o que faz sentido pelas interpretações mais comuns da obra cinematográfica, que trata de temas como o suicídio de deus e um ser representante dos instintos do homem e sua ligação com o mundo pela natureza, que ao trazer mudanças é saqueado, torturado e crucificado por monstros em uma alegoria à humanidade e o quão corrosiva se tornou ao mundo. Tal fato só serve para fortificar a grandiosidade de Antichrist Svperstar.

“Pique seus dedos e está feito
A lua agora entrou em eclipse com o sol
O anjo abriu suas asas
A hora chegou para coisas amargas”

Deformography, Wormboy e Mister Superstar formam uma santíssima trindade da saga do rock star em sua trajetória de decadência adolescente pelo sonho americano encarnado no sucesso midiático e na idolatria doentia impulsionada pela indústria do capitalismo.

“Hey, Sr. super ódio, eu só quero te amar
Hey, Sr. super foda, eu quero te chupar
Hey, Sr. super Deus, você vai atender minhas preces?
Hey, Sr. super homem, eu quero ser sua garotinha”

Angel With the Scabbed Wings indica em sua atmosfera furiosa a frustração do ícone alienado e sugado por todos, em uma espiral entorpecida.

“Ele é o anjo com as asas feridas
Altamente drogado ele quer o pó em seu nariz
Ele vai destruir a mais nova colheita
Secar todos os ventres com seus desgostos do rock n´ roll
Desgostos do rock n´ roll
Morto é o que ele está
Ele faz o que bem entende
As coisas que ele tem, você nunca vai querer ver
O que você nunca vai ser agora
Desenhe uma pequena fechadura para as pessoas no espelho
Você só quer vê-lo
Você não quer ser ele
Mamãe tem um espantalho para deixar o milho crescer
O homem nem sempre pode colher o que plantou”

É nesse ponto em que há uma reviravolta na trama e o protagonista começa a se rebelar contra esse resultado doentio das repressões e marginalizações que os valores sociais imprimem naqueles que não se adéquam ao seu grupo. Kinderfeld, que do alemão indica um local referente à infância, surge para fechar o parêntese do segundo ciclo e quebra a progressão do enredo e nos leva à infância de Manson. Talvez a música mais autobiográfica do disco, menciona diretamente um episódio pelo olhar de três personagens uma referente ao jovem Manson, outra chamada Jack que seria o avô e por fim uma voz misteriosa que surge para trazer de volta ao ponto de mudança do final do ciclo.

“[A inauguração do verme]

(Então eu consegui minhas asas e nem sabia
Quando eu era um verme, pensei que não conseguiria)

Uma voz que ainda não escutamos: ”Porque hoje está escuro
Porque hoje não há volta
Porque hoje suas mentiras me regaram
Me tornei a mais forte era daninha” erva daninha...

Através dos olhos de Jack: O gosto do metal, desagregador
Três furos sob o cinto de couro
Está cortado e inchado
E a idade está mostrando
Menino: ”Não há ninguém aqui para te salvar”

O desagregador (para ele mesmo): ”Isso é o que você deveria temer
Você é o que você deveria temer”

No episódio verídico, Manson que até então atendia por Brian Warner, descobriu seu avô em um ato de masturbação no porão da casa enquanto olhava fotografias de bestialidades. A referência ao trem se dá no fato do seu avô ligar trens de brinquedos elétricos para cobrir o barulho que fazia ao se masturbar. Talvez seja um momento que representa a quebra de inocência confrontada com a natureza animalesca do ser humano. O segundo ciclo se fecha e o a ultima mutação se aproxima.

O terceiro e último ciclo (A Ascensão do Desagregador) se inicia no coro da faixa título do disco. Aqui a persona do Anticristo já se apoderou do ser em desenvolvimento. Nessa faixa ele clama como um grito de autoafirmação todas as mudanças e destruições que trará para o mundo. Na faixa seguinte, 1996, Ele se debruça sobre a sociedade e suas distorções de realidade doentias como o fascínio por armas e a cultura de segregação com uma violência sobre-humana como um Zaratustra que desce da montanha após um período de autoaprimoramento.

“Anti dinheiro e anti ódio
Anti coisas que eu fodi e comi
Anti polícia e anti diversão
Aqui está o anti arma do presidente
Anti satã e anti negro
Anti mundo que está nas minhas costas
Anti gay e anti drogas
Eu sou um viado anti papa

Não posso acreditar nas coisas que não acreditam em mim
Agora é sua vez de ver o que eles odeiam em mim

Anti pessoas agora você foi longe demais
(Aqui está o nosso) anticristo superstar!”

Minute of Decay aproxima tudo do fim em mais um momento reflexivo referente aos pensamentos de desilusão, depressão, apatia e toda a sorte de mazelas psicológica que a sociedade enlouquecida em que nos vivemos trás. O anticristo se cansou de tentar mudar a humanidade uma vez que essa não se dispõe. Então o Anticristo se volta contra tudo em um niilismo latente na faixa The Reflecting God, desprezando o mundo, a ideia de deus e as ilusões de autopenitencia eterna.

“Seu mundo é um cinzeiro
Queimamos e rolamos como cigarros
Quanto mais você chora, suas cinzas viram lama
A natureza dos sangessugas, as virgens sentem-se enganadas
Você só passou um segundo da sua vida

Meu mundo não é afetado, há uma saída aqui
Eu digo, então é verdade
Há um sonho dentro de um sonho
Eu fico mais acordado quanto mais eu durmo
Você vai entender quando eu estiver morto”

O Anticristo destrona Deus. Enche os pulmões de ar e antecedido por trombetas celestiais traz o Livro das Revelações de João, ou, o Apocalipse em si. Um último grito de fúria na força da voz de Manson como se mil facas estivessem em sua garganta e tudo é lançado pelos ares.

“Eu fui até Deus só para ver e eu estava olhando para mim
Vi que o céu e o inferno eram mentiras
Quando sou Deus todos morrem

Cicatriz, você consegue sentir meu poder?
Atire aqui e o mundo fica menor
Cicatriz, você consegue sentir meu poder?
Um tiro e o mundo fica menor”

Man That You Fear surge para encerrar a obra com uma melancolia marcante onde Manson na pele do Anticristo trouxe as mudanças ao mundo, feriu o cristianismo e a humanidade. Com um olhar pessimista quanto ao que está em volta, ele vê que a humanidade continua a desprezá-lo e essa é sua sina em um caminho de flagelação pública, o que mais tarde se confirmou na realidade com o massacre de Columbine em 1999 onde Marilyn Manson foi usado como um bode expiatório para todos os problemas que o tratamento doentio dos EUA causou aos seus jovens. Após a conclusão do terceiro ciclo a faixa oculta, Track 99 nos leva de volta ao início do disco mais uma vez atuando nos conceitos de Nietzsche do Eterno Retorno onde o filosofo alemão diz que a humanidade está condenada a repetir pela eternidade um conjunto de situações como revoluções, guerras e crises. Talvez uma ironia amarga da realidade com a própria ironia do disco.

A conclusão final é de que Antichrist Svperstar é uma obra extremamente complexa e incisiva que permanece atual até hoje no contexto em que vivemos, no bullying constante, o fascínio por violência e o fanatismo religioso, assim como os dois trabalhos posteriores que formam a famosa “Triptych”  (Antichrist Svperstar em 1996, Mechanical animals de 1998 e Holy Wood (In the Shadow of the Valley of Death) de 2000). Uma obra que instiga, muda, expõe, transforma e mesmo 20 anos decorridos do seu lançamento aparenta ter acabado de se levantar furiosamente dos mares como uma besta apocalíptica prestes a dar um soco doloroso no estômago da sociedade, e outro no cérebro de quem se dispõe a iniciar a jornada com um cortante grito que pede a todas as crianças prestes a mudar suas concepções que cantem:

“Nós odiamos amar, nós amamos odiar!”.

Artigos relacionados ao Antichrist Svperstar no Nachtkabarett:

A Terceira e Última Besta

O Verme e o Dragão Vermelho

O Baphomet

A Maçã da Sodoma

Igreja do Anticristo Superstar

O Símbolo Shock

Antichrist Svperstar

Zim Zum


Ciclo I – O Hierofante
1. Irresponsible Hate Anthem
2. The Beautiful People
3. Dried Up, Tied and Dead to the World
4. Tourniquet
Ciclo II - A Inauguração do Verme
5. Little Horn
6. Cryptorchid
7. Deformography
8. Wormboy
9. Mister Superstar
10. Angel with the Scabbed Wings
11. Kinderfeld
Ciclo III - A Ascensão do Desagregador
12. Antichrist Superstar
13. 1996
14. Minute of Decay
15. The Reflecting God
16. Man That You Fear
99. Track 99

Em memória de Nick Kushner, que dedicou sua vida à arte e ao estudo minucioso da obra de Manson com uma inteligência sobre-humana e uma paixão evidente pelo que fazia. Sem Nick não seria possível ter o nível de compreensão e amor pela obra de Marilyn Manson que ele me possibilitou. Obrigado Nick, descanse em paz.










05.11 @ Ozzfest Meets Knotfest
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14.11 @ Annexet
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16.11 @ Sporthalle
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