Hoje (15) foi lançado oficialmente o videoclipe de We Know Where You Fucking Live, primeiro single do Heaven Upside Down, décimo disco de estúdio do Manson, que sai no dia 6 de Outubro.

O vídeo foi dirigido pelo diretor e fotógrafo britânico Perou. Assista!

Em entrevista para a Billboard, Manson fala sobre o novo álbum e sobre quando Justin Bieber lhe disse que o tornou "relevante de novo" por usar sua camiseta nos shows. Leia a tradução na íntegra abaixo!

 

Marilyn Manson fala sobre se tatuar com o Johnny Depp, a treta com Justin Bieber e seu ardente disco novo

Marilyn Manson está sentindo dor física.

Essa não é a aceitação de vulnerabilidade que alguém esperaria do auto-proclamado Anticristo Superstar, que certa vez vangloriou-se de espetar agulhas embaixo das unhas por puro divertimento. Mas na noite passada, o subversivo do hard rock e seu amigo próximo Johnny Depp fizeram tatuagens iguais da capa original da coleção de poesias As Flores do Mal, de Charles Baudelaire - um esqueleto cujo os ossos do braço derreteram em galhos de uma árvore. Apesar de seu consumo lendário de drogas e absinto, Manson aparentemente continua governado pelo mesmo sistema nervoso que nós.

Todas as cicatrizes — musicais, físicas, mentais, emocionais — elas são o que te definem,” diz Manson. Aos 48 anos, ele passou pelo falecimento dos pais, um divórcio da dançarina burlesca Dita Von Teese e a dissolução de vários outros relacionamentos de alto nível.

Se você vai desafiar o mundo como eu desafiei, vai precisar de culhões para isso - mais do que as pessoas pensam,” ele diz. “Não estou me gabando, mas isso pesa.

Em uma suíte no dito assombrado Hollywood Roosevelt em Los Angeles, o nativo de Ohio está vestido em um esquema de cores de um agente funerário: casaco e calça pretos e coturno. Ele é mordaz e espirituoso pessoalmente, tão eloquente e ponderado quanto na participação no documentário Tiros em Columbine, lançado em 2002.

Marcado para o dia 6 de Outubro, o décimo disco do Manson, Heaven Upside Down, inaugura o terceiro ato, onde ele surgiu como um ator em meio período (Salem, Sons of Anarchy) e um ímã inspirador para popstars rebeldes, de Justin Bieber a Lil Uzi Vert. A colaboração com o compositor Tyler Bates (Madrugada dos Mortos, 300) encontra o Manson misturando Killing Joke com Massive Attack na propulsão maníaca de seus clássicos antigos. Refletindo sobre o lançamento, Manson fala sobre política, popstars usando suas camisetas e como boates de strip e vodca o ajudaram a lidar com a morte de seu pai.

No Dia da Eleição, você lançou um pequeno videoclipe para seu single SAY10, que mostra você em um trono presidindo sob uma figura decapitada e sangrando parecida com Donald Trump. Explique.

Com a política, agora é o melhor momento para criar arte, mas foi a mesma coisa com o [George W.] Bush, [Bill] Clinton, qualquer presidente. Obviamente, fiz uma declaração no Dia da Eleição que foi artisticamente colocada em um vídeo, e fiquei surpreso que as pessoas se focaram mais no fato de alguém de terno com uma gravata vermelha - que poderia ser qualquer pessoa - do que comigo fazendo chover com páginas da Bíblia [como ele faz no vídeo]. Eu o gravei em uma certa época para fazer uma declaração ao invés de votar. Meu trabalho é ser o caos no mundo, não resolver problemas. Sou um tornado.

Você acha que estamos em uma época mais caótica do que antes?

Acho que essas coisas levariam a qualquer fanatismo religioso ou político, ou qualquer um que coloque a emoção à frente da razão, a arrancar a cabeça. Essa é a única coisa que aprendi nos dois últimos anos: razão antes da emoção. Porque geralmente eu reajo de maneiras ilógicas, como a lendária história de que coloquei uma arma na boca de um editor - a única coisa que posso dizer sobre isso é que escapei de ser preso por agressão por lesão corporal na Trump Tower. Essa é a única vez que vou citar o nome dele nessa entrevista.

Como você se sente de ter sido um rebelde anti-sistema para ser celebrado como um estadista mais velho, com o Lil Uzi Vert te colocando como sua maior influência?

Quando o Uzi me conheceu, ele me disse que [a camiseta do Marilyn Manson que ele estava usando] tinha porra grudada de uma experiência recente, e ele dormiu com ela o tempo todo. Estava usada; não era fingindo ser vintage. Ele me lembra de quando eu estava começando. Não acho que ele seja algo imediato, mas alguém que vai continuar crescendo e melhorando.

Já alguém como o Justin Bieber, ele estava usando minha camiseta no palco, e não de uma maneira como o Lil Uzi Vert. Fui até ele em um bar chique onde muitas celebridades - palavra que odeio - vão. Vi uma menininha loira usando um casaco rosa, e era o Bieber. Eu sentei e disse, “Ei, então você usou minha camiseta e tudo no palco.” Ele era uma daquelas pessoas que ficam te cutucando enquanto falam, e começou a falar de tamanho do pau. E então ele disse, “eu te tornei relevante de novo.”

Como você respondeu?

Eu respondi, “Você teve uma grande ideia de tocar The Beautiful People em um show seu no Staples Center amanhã” e ele, “sim, tive”, sem saber que dei a ele uma ideia que tinha acabado de inventar. O empresário dele sentou e eu perguntei, “Qual o horário da passagem de som amanhã? Que horas eu deveria estar lá? Porque vamos tocar The Beautiful People.” Obviamente quando deu o horário no dia seguinte eu não apareci.

Mas foi bom porque eu não precisei processar a empresa dele por fazer as camisetas que ele usou com o nome dele e o meu rosto. Eles foram bem tipo, “Sabemos que estamos errados; apenas pegue o tanto de dinheiro que quiser.” Então foi um “vai se foder” duplo, mas não teria acontecido se ele não tivesse dito, “eu te tornei relevante de novo”.

Alguns meses atrás seu pai faleceu devido a uma longa doença que ele manteve em segredo até o fim. A morte dele afetou a criação do Heaven Upside Down?

Tinha acabado de finalizar Sarurnalia, que foi a música que faltava para completar o disco. Quase que imediatamente depois, eu falei com meu primo em Ohio, e ele me disse que precisava ir para lá ver meu pai. Só tive a chance de dizer oi, beijá-lo e dizer que o amava, e meia hora depois ele teve uma convulsão e morreu. Tomei uma garrafa de água cheia de vodca e foi difícil passar por isso; fiquei de joelhos no canto meio que chorando e lidando com tudo. 

De alguma forma, conseguiram revivê-lo e o colocaram na UTI durante a noite, então fiz o que meu pai queria, que era ir a uma boate de strip com meu primo. Enquanto estávamos lá, o hospital ligou pedindo pela minha permissão se era ou não para ressuscitá-lo [caso acontecesse novamente]. Perguntei se havia algo que eu pudesse fazer naquela noite vs. quando o médico me disse para ir na manhã seguinte.  A enfermeira disse, “Bem, você pode rezar por ele.” Fiquei tão puto que falei, “vai se foder” e desliguei o telefone. 

Na manhã seguinte eu cheguei lá às 7am e foi terrível. Pedi para o médico dar bastante morfina a ele.

Minha tia estava ao lado do meu pai e queria segurar sua mão quando ele finalmente partisse, mas a mão dele estava no pau, então ela não conseguiu. Ele partiu como um campeão. E ele queria que eu te dissesse isso.

Já são quase 20 anos desde que você lançou um single chamado Rock is Dead. O que mudou para você?

O estilo de vida rock n’ roll não está morto — você só tem que ser bom nisso. Você tem de ser profissional se quiser ser um rockstar. Acho que houve épocas em minha vida onde eu não estava tão bom quando eu deveria. E devo dizer que quero fazer um retorno. Esse disco foi completamente uma volta às raizes… tem o fogo, porque me sinto da mesma forma. Quando as pessoas dizem, “Você está com raiva do quê?" Eu respondo, “Do que eu não estou com raiva?”

 
Mais uma boa entrevista foi publicada! Desta vez pela Revolver Magazine. Confira a tradução na íntegra!
 
 
Sobre álbum novo, morte de seu pai e "trazer o caos de volta"
 
 
Porra”, grita Marilyn Manson enquanto pega seu telefone, embora seu tom de brincadeira mostre que esse é só um jeito bem Manson de responder a uma ligação da Revolver. “Lamento que não esteja aqui pessoalmente para que eu possa te atormentar como de costume."
 
O notório shock-rocker está com uma boa aura hoje, tendo acabado de supervisionar a edição final do vídeo de We Know Where You Fucking Live, uma música do, com lançamento em breve, Heaven Upside Down, seu décimo álbum de estúdio. Escrito e produzido juntamente com o compositor de trilhas sonoras Tyler Bates – que já havia colaborado com Manson em seu lançamento de 2015, o The Pale EmperorHeaven Upside Down está marcado para sair dia 6 de Outubro. E tendo recentemente retornado de uma, bem-sucedida, turnê de 15 shows em festivais europeus, Manson e sua banda (que inclui o baixista de longa data/parceiro no crime: Twiggy Ramirez, baterista do Stolen Babies/Team Sleep: Gil Sharone e o guitarrista Paul Wiley) vão pegar a estrada dia 27 de Setembro par uma turnê norte-americana, que terá seu clímax dia 5 de Novembro com a performance no “Ozzfest Meets Knotfest”, em San Bernardino, na Califórnia.
 
Contudo, demorou um tempo para que Manson chegasse até aqui. Verão passado ele havia anunciado que seu álbum, até então conhecido como SAY10, seria lançado no Dia dos Namorados de 2017; mas o dia veio e se foi sem qualquer música nova, e depois, várias outras datas que eram rumores de um possível lançamento também passaram. Manson conta à Revolver que um punhado de fatores – incluindo a doença que acabou por tirar a vida de seu pai, Hugh Warner, no dia 7 de Julho – estavam envolvidos no atraso, mas que no final das contas foi para o melhor. 
 
Tiveram alguns tropeços pelo caminho”, ele conta. “Por causa da turnê, e Tyler tendo que se dedicar a outros projetos musicais, e a inesperada doença do meu pai, meio que entrou em conflito com parte da minha habilidade de fazer o álbum. Mas nada realmente me parou. Eu acho que, por algum motivo que ainda vai, eventualmente, se relevar pra mim, era para o álbum ser lançado agora. Se ele tivesse sido lançado na data original, não se chamaria Heaven Upside Down, não teria a música Heaven Upside Down, não teria a música Saturnalia, não teria a música Revelation #12; e eu acho que essas músicas são muito importantes para definir esse álbum.
 
Lamento pela morte de seu pai.
 
Como eu e você já conversamos antes, meu pai e eu tivemos um tipo diferente de relacionamento, mas ele me ensinou muitas coisas. Meu pai é muito presente no álbum, desde antes de eu saber o que iria acontecer. E quando eu terminei-o, eu estava ansioso para mostrar a ele. Acabei não podendo fazer isso, mas sei que ele queria que eu fosse forte, e não fraco. Não é algo que as pessoas precisam dizer que lamentam, ou pegar leve comigo por causa disso. É estranho – o último álbum foi dedicado à morte da minha mãe, e esse, à morte do meu pai. No dia seguinte ao que tínhamos terminado Saturnalia, a última música do álbum, eu descobri que meu pai estava morrendo. Então eu peguei um voo para Ohio, e eu estava com ele quando ele morreu, e eu felizmente consegui me despedir dele. 
 
Você disse que a presença dele pode ser percebida no álbum – como?
 
Tem muita simbologia visual lá, e eu percebi que haviam coisas referentes a experiências que eu não tive, mas que talvez foram passadas a mim por coisas que foram crescendo próximo ao meu pai. Então aí é onde sua presença pode ser percebida. Quando eu escuto ele objetivamente agora, eu acho que deixei a parte inconsciente da minha mente tomar as rédeas nele, e o subconsciente da minha mente estava passando informações ao meu consciente, assim então eu pude cantá-lo fisicamente. Então eu acho que eu estava trabalhando em todos os níveis diferentes... Eu nunca tinha olhado para o tempo do mesmo jeito que qualquer pessoa faria. É uma coisa que eu nunca pensei em explicar, porque eu nunca soube como outras pessoas viam o tempo. Eu tenho dificuldade olhando para calendários, tentando entendê-los. Eu só o compreendo num sentido tridimensional. Eu senti que nesse álbum existem certos momentos onde não é o mesmo tempo que resto do mundo a minha volta está vivendo. 
 
O álbum tem muito mais raiva e um tom agressivo que o The Pale Emperor, no qual você também trabalhou com Tyler Bates. O processo criativo foi diferente, de alguma forma, daquele último?
 
As letras nesse disco foram um pouco diferentes das do último. Foi talvez um jeito mais similar ao Holy Wood – muito foi escrito em prosa. Eu não me lembro se você chegou a ver o caos que são meus cadernos, mas normalmente eu tenho 10 deles a todos os momentos, porque eu não consigo me lembrar em qual eu estou escrevendo. Mas estranhamente, dessa vez eu consegui escrever todas as letras em somente um caderno. E então Tyler teria uma ideia musical, e eu teria meu caderno aberto comigo lá, e ele, literalmente, seguiria daí. Nós nos sentamos de frente um para o outro – é assim que trabalhamos, usando os fones de ouvido. Nós olhamos nos olhos um do outro enquanto escrevemos, então é uma experiência bem íntima e muito pessoal entre mim e ele. Eu não vou dentro de salas acústicas, ou qualquer coisa desse tipo – muitas das minhas performances no disco são de uma tomada só, porque eu queria me sentir ao vivo, eu queria fazer a performance daquilo.  Muito do material musical que Tyler me apresentou me fez me sentir como se estivesse num filme – cada música é uma cena diferente, e deixa você extremamente ansioso pra saber que merda que vai acontecer a seguir. Tem algumas experiências extremas com sons. Nós fomos bem específicos em não deixar outra pessoa masterizar ele, alguém que pudesse acidentalmente retirá-las. Nós temos alguns sons muitos intensos. Sons químicos, científicos, bi neurais que, ás vezes, até ME fazem ter ataques de pânico enquanto estou ouvindo!
 
Eu assisti alguns clips dos seus shows na Europa desse último verão, e eu fiquei impressionado como naturais e fortes as músicas novas que você cantou – Revelation #12, We Know Where You Fucking Live e SAY10 – soaram em relação ao resto de seu setlist. Não foi algo do tipo, “Hey, aqui uma tentativa de fazer alguma coisa nova...
 
Estou feliz que você viu desse jeito. As músicas novas tiveram um estranho imediatismo para com o público que me surpreendeu, e me fez pensar em coisas que também pensei sobre o Antichrist Superstar. Eu não estava tentando fazer um álbum que fosse uma reminiscência do Antichrist Superstar ou do Mechanical Animals. Eu estava tentando ter a mesma atitude que eu tive neles. Eu acho que a banda chegou num ponto muito forte. Eles sentem a mesma força, eu acho, que eu senti durante a era do Antichrist Superstar. Essa é a diferença entre alguém que não tem nada a perder, e alguém que tem tudo a ganhar. Quando você está encarando alguma coisa que é muito perigosa... Eu acho que haverá caos. Isso é o que eu sou. Isso é o que eu estou aqui para trazer de volta, e eu estou aqui para mostrar. Não é só tentar lançar um ótimo album – é botar pra foder. É pra isso que eu estou aqui. Esse disco não está tentando ser violento, ou tentando dizer coisas que são enfaticamente políticas, enfaticamente religiosas ou enfaticamente sexuais. Ele está colocando uma história em que você se encaixa. Eu realmente sinto que é para ser um filme para o ouvinte, e o final é, claramente, como você quer entendê-lo. 
 
Tem havido muita expectativa – parte devido ao seu teaser de SAY10 lançado em Novembro – que esse álbum seria uma reação a Trump e o estado atual dos Estados Unidos. Mas agora você está dizendo aqui que, na verdade, esse não é o caso.
 
Bem, a maior parte dele foi escrita liricamente antes [de Trump ser eleito]. E eu poderia ter visto isso chegando, porque isso evidencia a estupidez dos estadunidenses estando irados sobre uma coisa que eles fizeram por conta própria. Não tem diferença do houve com o Bush, e todo o resto que veio no passado – isso só me ajuda a parecer mais inteligentes para os europeus, porque eu sou visto por eles como a voz da razão. [risos] Mas eu não estou falando do presidente de agora ou do passado. Eu já tive uma quase obsessão sobre apontar a relevância dos assassinatos de JFK e John Lennon, e como tudo aquilo tinha um efeito em o que se tornaria a era da minha vida. Mas aquilo não foi falando de algo que era atual. Porque se você está falando de algo atual, isso também data seu álbum, em certo sentido, e eu queria que esse disco fosse bastante imortal. E eu quis que ele não fosse o que as pessoas esperavam. Eu não quero escrever algo que me enjoe. Eu quis fazer um álbum que eu pudesse por pra tocar e escutá-lo eu mesmo. 
 
Apesar da atitude de “foda-se essa merda toda” do disco, eu acho que seu senso de humor é mais aparente nesse álbum do que no último. 
 
Você enxerga a risada maliciosa -  você enxerga a risada maliciosa nas sombras.
 
É, você poderia dizer isso. 
 
Eu não sei o que isso significa, mas esse será provavelmente o título do seu artigo – a Risada Maliciosa nas Sombras. [risos] Lily, minha amada gata que você chegou a conhecer, faleceu ano passado. Ela era meu animal espiritual, e foi tão difícil perdê-la. Então eu arranjei dois meninos novos, e eles são diabinhos, realmente. Seus nomes são William "Bright Boy" Manson e Rusty Manson. São ambos da raça Devon Rex, como a Lily, e esses dois devem ter tido um efeito no álbum também. Porque eles gostam de ficar olhando pra mim e derrubar alguma coisa no chão. Eles olham nos meus olhos com uma expressão de “Você viu o que acabou de acontecer?”. Então acho que o lance de “botar pra foder” também pode ser aplicado no mundo animal. Nós podemos atribuir um pouco da culpa ao reino animal. Se as pessoas ficarem desapontadas sobre os efeitos desse disco, eles também deverão ficar desapontados sobre os gatos. Se você quer ter ódio por mim, isso significa que você também odeia gatos – então. Você sabe, você é uma má pessoa! [risos]
 
 

Manson concedeu uma longa e ótima entrevista para a revista Dazed & Confused e abordou vários assuntos. Desde o motivo pelo demora do lançamento do disco até depressão. Confira a tradução na íntegra abaixo!

 

Marilyn Manson sabe onde você mora

Enquanto ele se prepara para lançar Heaven Upside Down, seu décimo disco, falamos com o anticristo superstar sobre morte, Veludo Azul e por que ele está aqui pelo caos.

Liberdade de expressão não vem com plano dentário. Se vai falar, fala na minha cara. Muita gente interpreta a música como sendo sobre o governo observando e sabendo de tudo - acho que eles deveriam se preocupar mais comigo.

É início da tarde em Berlim, embora você não consiga distinguir (estamos sentados em um bar gótico e sombrio não muito diferente do Gold Room no Overlook Hotel mostrado por Kubrick) e Marilyn Manson está bebendo vodca; seus vários anéis prateados batem contra o copo enquanto ele discute We Know Where You Fucking Live em tons graves por trás de óculos escuros enormes. É uma música que é um arquétipo do Manson, um míssel americano ameaçador de vingança e paranoia que atua como a declaração em seu novo álbum, Heaven Upside Down, um disco que foi finalizado em agonia de um trauma pessoal.

Não sabia que meu pai ia morrer,” ele diz.

Não afetou a maneira com que o disco saiu, mas afetou todo o final da história. Saturno viaja ao redor da terra a cada 29 anos e passa em frente à lua - começou logo quando finalizamos o disco e terminou na manhã da morte do meu pai. A última música que escrevi foi Saturnalia e antes dela foi Heaven Upside Down. Tem a mitologia de Saturno - o pai comendo seu filho - talvez tenha sido a maneira do meu pai de dizer, “ok, você está pronto, filho, lance esse disco” porque ele não teve a chance de ouvir. Senti que o álbum precisava ser feito - não para salvar o mundo, não para propósitos de rock n’ roll, não porque quero fazer um grande disco. Tudo isso está incluso no pacote, mas estou aqui para foder tudo. Esse é o meu trabalho. Sou um tornado e você pode sentar e assistir.

O pai do Manson aparece frequentemente durante nossa conversa. Em certo ponto ele cita The Defiant Ones, um documentário que foca no fundador da Interscope, Jimmy Iovine, e Dr. Dre, mas, no terceiro episódio, detalha como Trent Reznor trouxe Marilyn Manson para seu selo e o impacto que isso teve no rock e cultura pop no geral. “O Jimmy Iovine diz algo sobre como quando as pessoas veem algo real, eles sabem que é real,” diz Manson. “Fiquei um pouco emocionado assistindo porque pensei que meu pai fosse ficar bastante orgulhoso de assistir isso.

Manson cresceu em Ohio como Brian Warner, e mais tarde mudou-se para a Flórida com seus pais. Seu pai era pra ter virado um padre Jesuíta antes de ser recrutado pela CIA, que Manson diz que “estavam interessados em mim pelo meu comportamento psicopata, meu QI e minha habilidade em decifrar idiomas.” Tirando a operação clandestina do governo, sua infância foi comum - e ele era um garoto inteligente que estudava em escola cristã, onde quebrou o nariz de um garoto por ter criticado um de seus poemas. “Não lembro qual era o poema, mas levantei e dei um soco na cara dele,” ele diz. Manson foi expulso da escola tempos depois por colocar um dildo na mesa de um dos professores, um brinquedo sexual que ele roubou de um parente por curiosidade, mas ele não saiu sem aprender algo - a escola cristã foi o primeiro lugar onde ele ouviu Judas Priest e Led Zeppelin, quando tocaram os discos ao contrário para a classe para provar que o demônio estava dentro dos LPs.

Eu costumava ser muito curioso, de um jeito meio Veludo Azul,” ele diz, fazendo referência ao anti-herói Jeffrey Beaumont, interpretado por Kyle MacLachlan, que sofre uma drástica perda de inocência após encontrar uma orelha cortada no filme do David Lynch. “(O dildo) era do meu avô, um caminhoneiro crossdresser que vendia fotos de zoofilia. Ele sofreu um acidente e quando o levei para o hospital, ele estava usando lingerie embaixo das roupas. Então você vê como isso começou a se desenvolver, como eu virei o que sou. A primeira pornografia que vi foram duas mulheres chupando o pau de porcos, bodes e gansos. Meu pai ou meus primos me disseram que ele não era só um colecionador de fotografias em preto e branco de mulheres chupando o pau de animais, era realmente o seu trabalho e dirigir caminhões era pra despistar. Então ele estava transportando pornografia, provavelmente no seu caminhão.” Como uma criança curiosa, Manson espiava seu avô, que “falava igual um monstro” por sofrer de câncer na garganta, a doença que eventualmente o matou.

O causo de zoofilia é um que Manson já falou sobre antes. É fácil sentir essa determinação para transmitir uma infância passada dentro de uma quieta, mas ameaçadora escuridão do meio dos EUA. Essas experiências viraram uma estética - a música do Manson sempre confrontou a brutalidade do que acontece por trás das portas fechadas. 

 

 

Morte é outro tema recorrente em nossa conversa, não apenas a morte de pessoas reais, mas as culturais também - a morte de Hollywood, do nosso tipo secreto de fama que morreu no surgimento do Instagram, dos videoclipes e de popstars como forças perigosas.

Em 2001, Eminem - que era para o rap o que Manson era para o rock - lançou o hit furioso The Way I Am. A letra, “Quando um cara tá sofrendo bullying e atira na sua escola eles colocam a culpa no Marilyn” faz referência ao furor da mídia ao redor do rei gótico pós-Columbine. No dia do massacre, Bill O’Reilly, âncora da Fox News, descreveu Manson como a influência mais perigosa para os jovens americanos, manchetes em frenesi viraram protestos e Manson foi obrigado a defender-se publicamente, adorado e desprezado. Manson apareceu no vídeo de The Way i Am, e a dupla virou a Mais Perigosa dos EUA.

A ideia dos EUA que Manson sempre lutou contra está aqui - o anticristo é o Presidente, seus eleitores, os animais mecânicos - mas parece que ninguém tomou o bastão do N.W.A, Marilyn Manson ou Marshall Mathers. Enquanto Manson fica com o rótulo de último verdadeiro rockstar (“Não coloque essa merda na minha cabeça”), ele aconselha a qualquer um que tenha interesse em ser icônico a esconder as mundanidades da existência humana.

Quando você me pergunta por que ainda estou por aqui enquanto outras pessoas não é porque eu nunca esvaziei o balde do mistério,” ele diz. “Ninguém quer ver por trás da cortina. Não quero ver por trás da cortina, por mais que esteja ali. Minhas cortinas são pregadas na parede, literalmente e metaforicamente. Acho que é a morte disso… quando as pessoas começam a fazer coisas normais. Você não quer ver o lado que está mostrando muito. Você puxa a minha cortina e tudo o que você vai ver é poeira no chão, coisas quebradas e armas.

Nesse ano, a morte colocou uma sombra no mundo do rock americano com os suicídios de Chris Cornell (Soundgarden) e Chester Bennington (Linkin Park) (Manson não era próximo de nenhum deles), abrindo uma discussão sobre como lidar com problemas de saúde mental. Em 2007 o próprio Manson sofreu de uma grande depressão.

Quando eu estava com depressão as pessoas me diziam, ‘Ei, você é ótimo, não se preocupe com isso’ e aquilo faz a coisa ficar mil vezes pior, porra,” ele diz. “Esse é o lance da depressão. Você sabe que é melhor do que está agora e você não consegue fazer nada quanto a isso, então quando alguém lhe diz que você é melhor do que isso, você vai cada vez mais pro fundo do poço até tomar uma decisão - você vai encarar seus medos ou enxugar suas lágrimas, você vai lutar ou não. Eu só senti uma desconhecida responsabilidade de lutar. Nunca é fácil.

Fantasmas assombram o mundo do rock, seus espectros assombram quem vem após, suas despedidas para o pós-vida são geralmente carregadas com talvez uma sensação de que foram cedo demais, cheio de problemas, ou que gastaram as reservas de talento. Manson diz “vejo luzes pelo canto dos meus olhos na minha casa”. De fato é a mesma casa que morou Michael Massee, o ator que acidentalmente atirou e matou Brandon Lee no set de O Corvo em 1993, e depois apareceu em A Estrada Perdida, o mesmo filme do Lynch que Manson fez sua estreia atuando como uma estrela pornô. Massee morou na casa de hóspedes na parte de baixo da onde Manson mora, mas em Outubro de 2016 morreu após uma batalha contra o câncer.

Tenho dois gatos, irmãos, que são gatos muito intuitivos e inteligentes,” diz Manson. 

Eles veem muita coisa, e eu observo. O que eu tenho são problemas com eletricidade. Eu ando em um quarto e a luz cai, as coisas param de funcionar, então não sei se estou assombrado. A música Heaven Upside Down é sobre isso - todo mundo diz que é sobre outra pessoa, mas é sobre mim. Talvez eu seja o fantasma e não saiba.

 Manson está determinado que este não será seu último disco e sente-se pronto para começar outro - esse demorou mais que o planejado devido à agenda de seu colaborador Tyler Bates com a composição de trilhas sonoras (Bates é um renomado compositor em Hollywood, assim como o produtor dos dois últimos discos do Manson e guitarrista da banda). Manson também tem seus compromissos no cinema e está convocado para ser o protagonista em um filme dirigido por Johnny Depp. Tirando a inquietude de lançar algo novo imediatamente, ele está feliz com o décimo disco. “Queríamos algo cru,” ele diz, anunciando que a maioria dos vocais do álbum foram gravados de primeira e isso foi vital para que tivesse o poder do amor carnal adolescente (Manson fala brevemente sobre sua vida sexual, que, em algum ponto, recentemente envolveu facas de trincheira e tasers).

Nós (eu e Tyler Bates) dissemos, ‘que música você tocava para as garotas quando queria transar aos 19 anos?” e ambos responderam Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me do The Cure. Eu disse, ‘é isso que eu quero, quero uma música onde você transe com a guitarra, faça o que quiser fazer com a guitarra, sem pressa. E o disco inteiro ficou assim.’ Eu adoro a sequência dele e do jeito que ficou porque parece um filme para mim cada vez que eu ouço. E não é uma daquelas coisas onde eu só escuto meu próprio disco porque é novo - esse eu posso ouvir com alguma perspectiva forçada, do espaço sideral.

O espaço sideral é um lugar que ele está familiarizado, tendo flutuado nele há quase 20 anos com Disassociative, um hino shoegaze sci-fi remanescente do Bowie. “I can never get out of here, I don’t wanna just float in fear, a dead astronaut in space,” ele cantou no Mechanical Animals de 1998. “Essa foi estranhamente escrita; encontrei em um caderno. Sem querer eu tomei Special K (cetamina) na noite anterior. Não conseguia me mover e aconteceu de ser em frente à Sunset Strip e eu caí em frente ao Rainbow Bar. Por sorte, alguém me levou para casa e pensei que seria uma ótima ideia nadar sem sentir nada. O sentimento de flutuação inspirou o som da música, o riff de abertura. Eu toquei aquilo após nosso pequeno surto com o espaço sideral.

Duas décadas e dez álbuns depois, Manson continua o mesmo ícone em um domínio diferente, um que ele nos avisou durante toda sua carreira. 2017 é um céu de cabeça para baixo, um pesadelo de uma paisagem capitalista de promessas quebradas que constantemente nos reasseguramos se é o que pedimos. Um mundo de incertezas com infinitas possibilidades junto de uma grande restrição, reality shows virando realidade… virando presidentes. “Não sou um fantasma,” Manson grita na faixa título do disco. E não é isso que estamos preocupados agora - se somos invisíveis ou quase mortos?

Só estou aqui pelo caos,” Manson diz. “Não estou aqui para salvar ninguém. Estou aqui para dizer às pessoas. ‘Olha, aproveite enquanto pode porque não vai durar para sempre.’”

Finalmente temos o primeiro single do Heaven Upside Down!

Nesta segunda (11) foi lançada oficialmente We Know Where You Fucking Live, além das informações sobre o novo disco da banda.

Heaven Upside Down sai no dia 6 de Outubro de 2017 - incluindo o lançamento no Brasil. São dez faixas no total e a pré-venda internacional já está disponível nos formatos físico, digital e vinil.

Confira a tracklisting e ouça a música abaixo!

1. Revelation #12
2. Tattooed in Reverse
3. We Know Where You Fucking Live
4. SAY10
5. Kill4Me
6. Saturnalia
7. Je$u$ Cri$i$
8. Blood Honey
9. Heaven Upside Down
10. Threats of Romance

 

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